sábado, maio 29

Menos Gullar, bem menos.

Segundo Miguel Chaia, professor universitário e diretor da Fundação Bienal, a sociedade atual vive um período de estetização do cotidiano onde a arte aplica-se à práxis humana, servindo como expressão visual do conjunto de relações entre os homens e gerando um sentimento de união e relação através dos sentimentos. Porém, ao falar de contemporaneidade, chegamos a um ponto onde a arte torna-se ampla a ponto de confundir-se com outras coisas e gerar certas confusões conceituais, como ocorreu na matéria de Ferreira Gullar sobre reprodutibilidade técnica no dia 23 de Maio, na Folha de São Paulo.
Gullar tratou sobre a relação entre o preço de objetos artísticos e itens industriais – no caso um carro esporte da marca Bugatti – analisando a predominância do alto preço no segundo item em relação ao primeiro e citando um equívoco de Walter Benjamim ao tratar da aura da obra de arte em seu texto “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”, em uma análise onde muitos fatores foram desconsiderados e só um viés da obra de Benjamim foi analisada, nem sempre de forma correta.
Inicialmente, devemos pensar no período em que vivemos, onde o carro faz condão de um objeto de desejo e que, portanto, pode entrar como fator gerador de experiência estética, comum das artes visuais após liberação da religião mas não exclusivo dela. Portanto, o exemplo gerador da discussão na matéria não foi feliz, pois duas situações diferentes de atribuição de valor foram relacionadas. Se a relação passa a ser livre, entrarão também na comparação imóveis, moda, jóias e toda uma discussão sobre status social que geraria outra matéria sobre a relação com a estética atual.
Além disso, foi citada no texto a criação de aura em uma obra de arte devido as suas reproduções futuras, citando como exemplo a Monalisa e suas inúmeras reproduções. Discordo, inicialmente porque é citado no texto o perigo contido na tese por pressupor que “todas as pessoas têm as mesmas qualidades, o mesmo gênio de um Albert Einstein(...)”. Oras, esse pensamento vai totalmente contra outra obra muito importante e representativa que é a Obra Aberta, de Umberto Eco, além de pesquisas sobre construtivismo na arte e experiência x informação (teoria de Larrosa). Como negar a visão, interpretação e experiência estética de cada um e, dessa forma, associar a criação da aura à reprodução e não a outros fatores muito mais representativos como a institucionalização da arte e a atribuição de valor pelos detentores do poder artístico. Sem dúvida não foi alguma reprodução posterior de Monalisa, como a realizada por Duchamp, que fez todos os milhares de visitantes diários do Louvre irem visitar a obra original.
Vejamos um exemplo claro: Salvador Dali, ao realizar sua reprodução da Vênus de Milo com gavetas e maçanetas peludas em 1936 que integra seu “mobiliário paranóico”, subverte o conceito da beleza decorrente da obra inicial e o alia à funcionalidade e conceitos surrealistas, indo contra a proposta original da Vênus e embutindo a estátua da proposta surrealista (vejam neste um simples exemplo de uma obra que já foi massificamente reproduzida). Porém, essa reprodução só é feita devido à aura já estabelecida na imagem por diferentes fatores históricos, e não gerou nenhuma onda repentina de interesse na obra original, apenas forneceu uma nova leitura de algo já produzido e portanto, produziu algo novo. Esse conceito pode ser revisto por Bourriaud em seu livro “Pós-produção”, onde o autor afirma que na contemporaneidade nada mais é produzido, apenas apropriado para a produção de algo novo através de uma nova leitura, criando uma obra independente que não altera a aura da anterior. Até porque Benjamim não critica a reprodutibilidade da obra de arte (pelo contrário, diz que a obra de arte sempre foi reprodutível), apenas cita que há o surgimento da reprodutibilidade técnica e que essa mudança altera alguns conceitos das artes visuais.
Sem dúvida, não houve equívoco algum, pois a aura realmente não pertence aos objetos industriais e sim aos objetos artísticos, porém isso não impede o interesse pessoal por eles e a vontade de colecionar e investir em sua posse. Porém a aura está muito além do preço dado, e constitui-se de todo um conjunto de relações formado apenas pelo contato e reflexão sobre a obra artística, que – no caso da pintura e escultura, além de linguagens atuais como a performance - é única e irreproduzível.. As reproduções de uma obra original não vêm com o objetivo de aumentar a aura da “obra-base” e podem, no máximo, complementar a leitura delas. A Vênus de Dali não é a Vênus original, assim como ocorre com as Monalisas feitas ao longo da história. Além de tudo, a discussão proposta por Gullar nem é valida, pois ele trata de um tipo de reprodução poética para exemplificar conceitos sobre reprodutibilidade técnica para justificar a venda de um carro que, analisando bem, nem em série é produzido. Acho bom pararmos de pensar em reprodução para produzir coisas de melhor qualidade para o público.

sexta-feira, maio 28

Assim caminha a humanidade...

... com passos de formiga e sem vontade (vou ficar com essa música na cabeça pra sempre agora)

Não escrevi antes porque estive trabalhando e não consegui. Como isto está uma zona e o Fê não vai postar hoje; aqui estou.

Eu ia escrever algo diferente disto, mas ao ver o post do Sandro, decidi-me dividir outra coisa.

Decidi dividir um pensamento louco meu.

Uma vez quando estava lendo um livro do Jostein Gaarder, - não me lembro qual era, mas arrisco-me com “Pássaro Raro” -, ele lançou uma idéia logo de início que me soou surreal.
A idéia era a seguinte; o homem havia conseguido a viagem no tempo. Mas havia conseguido, principalmente, dobrar o tempo quantas vezes quisesse, em qualquer direção, de qualquer forma, logo você poderia escolher coordenadas e saber de qualquer coisa.
Por exemplo, alguém digita uma data e um lugar e automaticamente assistirá o que aconteceu ali. Como se houvessem câmeras de todos os ângulos possíveis, em todos os lugares, todo o tempo. E isto no livro tornou-se tão real, que ele lançou uma TV com esta abordagem, e a partir de então começaram os programas, pacotes, e shows.

Por exemplo; você podia assinar o pacote Vida de Sócrates; duração 7300hs ou 20h por dia durante 365 dias. Ou Garotas Nuas no Chuveiro no ano de 2007, São Francisco – EUA, em 720hs. Ou Decisões tomadas no Salão Oval da Casa Branca em 6500hs. Bom, o tanto que sua imaginação permitir.

Essa idéia é tão absurda, e tão inalcançável na minha mente que do jeito que as coisas estão indo, eu acredito que um dia isto possa acontecer. Que percamos toda, sem exceção, intimidade que hoje temos. Qualquer coisa que façamos hoje, achando que mais ninguém vê, ou que você presenteia uma outra pessoa, com aquele momento de intimidade, um dia será deturpada e colocado em um pacote como; Declarações de amor parte 54.


Estou correndíssima com algumas crônicas por isso de não estender meu raciocínio. Pensem no que quiserem, mas saibam que eu digo esses poucos parágrafos com um pouco de revolta. Outra, comprem o livro; é bom. Maas não comprem por causa desse tema, porque ele dura poucas páginas.

terça-feira, maio 25

I see you.

Se você usa o Google Maps pra traçar rotas, dá uma olhada no que o novo mapa online do Bing vai ser capaz de fazer. Eu fiquei impressionado.

Clique em “View Subtitles” e selecione Portuguese (Brazil). Se não entender.

terça-feira, maio 18

Um post sobre nada

[Postando hoje, pois amanhã estarei ausente por todo o dia]

“E é aqui que nasce a religião, teia de símbolos, rede de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza. “ –Rubens Alves


Não tenho ainda nada pronto para contar, mas as religiões e indignações vêm me invadindo. Nessa semana estávamos entrevistando um padre católico, e fizemos a querida pergunta; você gostaria de comentar algo sobre a Reforma Protestante?

E não é que a primeira frase dele foi: “Olha, precisava ter um monte de dinheiro”, eu já girei os olhos, tudo o que havia lutado para convencer meu grupo de seis pessoas onde três eram ateus loucos, a não cutucar o homem tinha ido por água abaixo. Tudo bem, foi difícil para todos se manterem em pé diante a câmera.

Fiquei com dó do padre depois de tudo, ele disse muitas coisas com noção, fez render do jeito que precisávamos a entrevista, mas a frase matou, me matou. Lógico, que agora eu só a digo no blog, para criticar. Admito, e pior, depois disso desembestei a fazer perguntas para extrair alguma outra visão absurda dele.

Estamos mergulhados em estudos de religiões e eu ainda de nada sei. Só o livro do Jostein Gaarder já li mais de uma vez, e ainda tenho um trilhão de dúvidas.

A verdade é que gostamos de cutucar, de não entender e depois fazer perguntas irreverentes e inconvenientes. Ou não.

Acabei não dizendo nada, isso sim. Passar bem.


Se liga só no que eu achei

Ela não só escreve de cabeça para baixo como também SÓ consegue escrever assim!

Tive que postar no dia errado de novo, mas essas coisas só acontecem no meio da semana...

Vai trabalhar pra se encontrar sem se perder.



segunda-feira, maio 17

Porque na minha familia, nada pode ser normal

Se eu contar, ninguém acredita.

Tirei o dia para fazer coisas que estavam atrapalhando o andamento da minha vida. Faltei na aula e comecei a reger meus atos estritamente baseando-me na lista que tinha feito no dia anterior. Logo, minha agenda, minha melhor amiga. OK. Não fiz metade do que eu tinha para fazer, mas disso eu já sabia.

O fato é: eu ainda estava com zilhões de coisas para fazer, tentando fazer três ao mesmo tempo, afinal o dia já estava terminando (como sempre), quando eu ouço lá debaixo:
- Nanáaaaaaaaaaaaaaaaa, vem aqui! – era o meu irmão.
- Agora não dá.
- Naná! Por favor, eu preciso muito que você venha aqui!!! – ERA O MEU IRMÃO, portanto, bem não urgente.
- Já já.
- Tem que ser agora!!! – Aham, tem que ser agora para você me mostrar uma borboleta saindo do casulo na TV Cultura. Não, não vou.
- Espera aí! Tô fazendo outra coisa!!
- Nana, é sério. Você tem que vir aqui agora. PELAMORDEDEUS!!!!! – A voz dele estava ficando chorosa, e eu me preocupei.
- Pra quê?

Ele ficou em silêncio. Quem sabe ele não precisava mesmo de mim?? Dane-se, se ele precisasse mesmo, ele viria até aqui. Depois de uns dois minutos:
- NANÁAAAA VEMAQUIPELOAMORDEDEUS!!!! EUPRECISOMUITODEVOCÊ!!!
Levantei em um salto e corri, tudo isso inconscientemente. Não tive tempo e frieza de pensar e quase cai nas escadas.
Cheguei na cozinha, ele:
- Meus cabelos estão caindo.
Quando eu olhei, o cabelo dele estava todo falhado de um lado, quase careca, mas extremamente desigual. Levei um soco imaginário, pensei: Meu Deus! Uma doença, só pode. Eu tremia, não conseguia fechar minha boca. Comecei a passar mal e me debrucei sobre a mesa.

Aquele FILHO DA PUTA vendo tudo isso soltou: É brincadeira, tava tentando cortar meu cabelo, mas não to conseguindo.

E EU COM ISSO???? SEU...SEU...
Pra quem não sabe, o cabelo do meu irmão era assim:
Nesse momento eu descobri que meu autocontrole não só existe, como também é eficaz e abundante. Afinal, meu irmão ainda está vivo. E com os membros. Gritei durante vinte minutos, sem respirar. Sou irmã mais velha, então ainda tenho um pouco de autoridade para com ele, que ouviu de cabeça abaixada tudo o que eu estava falando “em voz altíssima”. Mas eu e ele sabíamos que eu não conseguiria deixá-lo: 1. Naquele estado até meus pais chegarem 2. Continuar fazendo merda atrás de merda. Arranquei a tesoura da mão dele e comecei um incessante trabalho de igualar as partes mais compridas, tomando cuidado para não deixá-las curtas demais.... Até pezinho eu fiz. Gente, na boa, se eu tivesse que chutar algo que eu nunca teria que fazer na minha vida, eu chutaria pezinho, no entanto, lá estava eu fazendo um pezinho (pra quem não sabe, é tipo a costeleta.)

Terminado a parte da tesoura, chegara a parte da maquininha. É bom lembrar que depois dos vinte minutos gritando, eu não parei de falar, resmungar e xingar. O que eu mais falava era: Você me deve dez cravos!!! Vinte! Cem cravos, cem!! (Só quem sabe sobre a minha obsessão por espremer cravos que entende, bom, agora todos.)

Mas era chegado momento: Barulho do portão, cachorro ficando agitado. Porta abrindo, passos na escada... “O que é esse monte de cabelo no chão??? Cadê a Nathália???”
Claro, porque eu sou a pessoa na casa que costuma cortar e modificar o próprio cabelo. Mas nunca coloquei em prática a ideia de raspar – não que eu já não tenha pensado nisso.
“Natháliaaaaaa...” Sério, eu não aguento mais ouvir isso. “Cadê vo...” quando minha mãe me viu, o semblante dela mostrou calma. Ufa, não foi dessa vez. Mas logo outra ideia assombrou a mente dela novamente: “O que aconteceu por aqui??”
Tudo bem que meu irmão podia ter saído do banheiro a acabado de vez com essa agonia, mas a verdade era que ele estava cagando de medo.

Eu sou uma irmã boazinha, mas não tinha como ele esconder por mais tempo: “Vem cá ver o Rafael.” Ela olhou. Virou. E saiu. Só escutamos da cozinha: “Deixa só o teu pai ver.”
Pensa em uma frase de impacto, que sempre caiu como uma bigorna nas nossas cabeças. Então, é essa. E é pior ainda quando vem seguida de: “Ver o quê??” Proferida pelo próprio. Ok, meu pai é legal. É compreensivo, não briga, não bate, não dá castigo. “Não gostei” Foi só o que ouvimos. Ok, melhor assim.

- Mas pai, você ficou bravo comigo?? – Esse era o meu irmão no melhor estilo “Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão murchas, sou osso roído e seu rabo entre as patas”
- Eu não gostei. Estou chateado.
CHATEADO. Meu Deus, se eu fosse meu irmão, não aguentaria isso. Trancaria-me no quarto chorando por dias. Meu pai chateado: não há coisa pior. Mas essa é uma neura minha.

A novela ainda está acontecendo. Meu irmão já quis ligar para a minha tia (Oi tia, raspei o cabelo e... Boa noite). Eu vou fazer chantagem com os cravos dele para o resto da vida. Meu vô não cansa de falar que, agora ele é homem. Minha mãe acha que foi aposta. Minha avó acha que está curto demais (mas eu acho que ela nem prestou muita atenção, afinal CLARO QUE ESTÁ CURTO DEMAIS, ELE RASPOU!!). O Snic tenta mordê-lo (Calma, Nic, é o Rafa! – Nada feito.)
E esse é ele, agora, no meu quarto. (E esse quadro sempre sai nas fotos porque é o lugar onde ele sempre fica conversando comigo, quando não é bem-vindo em nenhum outro cômodo da casa)
Enfim, quero só ver quando for eu a raspar o cabelo, coisa que eu me prometo desde a oitava série.